domingo, março 05, 2006

O esmaecer das cores


Como quem aguarda, deitado num banco envelhecido na estação de comboios, como quem lê um livro de pernas cruzadas na relva, como quem trinca uma maça enquanto ao lado a paisagem corre e a estrada corre e os ocres das paredes e as vinhas bem formadas nas encostas mancham o olhar, como quem, sentado numa cadeira, de pernas estendidas, ouve a rega e ouve a sua frescura pelo pátio adentro, eu aguardo, eu leio, eu mordo-me de curiosidade, eu escuto o amanhã. A fingir-me ausente, a captar com voluptuosidade o ancorar das cores nos meus olhos, do negro sobre o branco sobre o caprichoso cinza, a prestar atenção ao que dizem, a decorar com afinco a sua certeza e a sua energia. Fico, assim, em forma de desmaio interrompido, à espera que aquela névoa venha cair em cima da sombra e a transforme num sibilo semelhante ao que as lembranças fazem quando as vamos buscar ao fundo do corpo. Como quem ignora um sítio, as suas imperfeições e os seus humores, como quem tapa os ouvidos, se desprende do ruído circundante e prepara a pele para recolher a quantidade certa de luz.
E eu queria que isso durasse muitas horas, muitas viagens, muito tempo.

Os salteadores modernos


Coloco esta mensagem no sítio de uma instituição bancária mas presumo que ninguém a vá ler, uma vez que a colocação da mesma não lhes oferece nenhum retorno financeiro, mas não resisto em mostrar aqui o meu lamento, em jeito de grito de revolta. É ultrajante a cobrança pela visualização de cheques, disponibilizada por algumas instituições bancárias, através dos seus onerosos websites. Já não basta pagarmos uma enormidade de taxas, impostos, tributos, percentagens e outros métodos obscuros do género por todos os serviços inerentes à conta e à emissão dos ditos cheques e ainda temos que pagar um euro e meio se os quisermos visualizar on-line. Cheques que são, com quase toda a certeza, facilmente digitalizados e colocados no sistema para consulta.
Não, há que sugar até ao tutano o pobre trabalhador. Há que tornear a moralidade e extrair ao povo todos os tostões que podiam devolver alguma dignidade à sua vida, já de si, custosa.
Senhores gestores e representantes bancários, sinceramente, não acham isto tudo uma extorsão descarada? Ainda por cima vocês não roubam para comer. Vossas excelências saqueiam impunemente apenas para prolongar o estado de opulência em que se encontram.
Assim, também tenho milhões e milhões de lucro no final do ano. Assim, também eu pago afrontosas quantias para fazer anúncios publicitários, para patrocinar os três grandes clubes de futebol e para pagar os BMWs dos senhores directores.
Haja decência, por favor, haja alguma decência.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Por outro lado (por muitos anos, por favor)


Ana Sousa Dias sabe escolhê-los muito bem. Em cada convidado um mundo de histórias, trejeitos, expressões, informações, humor, inteligência. Excelência. Aquilo que ela e os seus convidados fazem é muito mais que serviço público. Abrir tantas divisões de uma casa encantada aos espectadores daquela maneira tão simples e tão fascinante é uma forma de arte. Não são só os convidados, cada um com a sua experiência e capacidades peculiares, não é apenas o abarcamento em forma hipnótica com que cada conversador envolve quem ouve e assiste. O rosto sereno de Ana Sousa Dias, o seu tempo de espera e o manuseamento perfeito da conversa são os pilares sólidos que fazem de Por outro lado uma dádiva televisiva rara. Perco o fôlego só de imaginar uma colecção de DVDs com todas as conversas / momentos de arte deste programa. E depois penso no esbanjamento de dinheiro e de tempo em programas de conteúdo inútil. Penso nas oportunidades e na visibilidade do lixo, da desinformação, do regredir, da escória televisiva que abunda neste país. Filmes de pancada, telenovelas, telejornais amplificadores da inutilidade, concursos de dinheiro e (electrodomésticos) fáceis, as galas de prémios fúteis. O histerismo de uma sociedade moribunda.
Mas, enquanto existirem Por outro lado e Ana Sousa Dias (e os seus convidados) haverá esperança. Um dia, algum produtor executivo num qualquer canal vai ter coragem. Vai acordar, numa manhã de sol escondido, vai carregar num botão e fazer correr os estores automáticos do seu apartamento de luxo e vai tomar a decisão, ainda acamado no seu roupão de cetim. Esse director que, no fundo, sentencia o que o povo absorve e o seu estado de erudição, vai lançar-se para além do dinheiro e das audiências e vai entregar o protagonismo merecido e salvador a um programa como este.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Philip


Quem ainda se lembra de Scotty J. (Boggie Nights, 1997), quem se lembra de Brandt (The big Lebowski, 1998), quem se arrepia quando se lembra de Allen (Happiness, 1998) e de Phil Parma (Magnólia, 1999), quem o viu trajado de Freddie Miles (The talented Mr. Ripley, 1999) ou de Jacob Elinsky (25th Hour, 2002), sabia perfeitamente que era uma questão de tempo. Aquele talento todo tinha que explodir e tornar-se memorável. Quem acompanha o dom de Philip Seymour Hoffman através dos filmes que fez, ao longo destes anos todos, tinha a certeza que este dia chegaria. O da visibilidade e reconhecimento mundiais. Finalmente, o brotar da sua extraordinária capacidade de representação, à vista de todos os que amam o cinema. Nem era preciso ir ver Capote para saber que este ano só por politiquices ou outro tipo de interesses lhe escapará o Óscar para melhor Actor.
A grandeza do cinema é feita de actores assim.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Este rei não vai nu


Fez, este mês, um ano que o alcancei. Quando apareceu nem quis acreditar. Li o contrato de fio a pavio e as entrelinhas, de lupa na mão. Obriguei pessoas amigas a lerem o contrato de fio a pavio, fi-las pegar na lupa e forcei-as a esmiuçar todas as letras miúdas que pudessem encontrar. Depois de demorada investigação cheguei à conclusão simples de que este Rei não é de cá. Não pode ser um autóctone como nós.
Fui a medo. Sentei-me na cadeira, em frente à menina que recebia os incautos. Os que queriam ver o Rei. Os que queriam ter o Rei, assim é que é mais correcto de se dizer. Sentado em frente à cachopa, que escrevia, li pela última vez o contrato. Tinha a caneta ao lado, cheia de tinta preta, já com a tampa fugida. «Este Rei está louco», pensei eu, a meio de um sorriso trémulo, atirado à menina. «Não pode ser, tanta generosidade, não existe». Penso mesmo que cheguei a soltar uma frase com sonoridade semelhante. Não tive outra escolha. Baixei a folha do contrato e das letras pequenas, afaguei a lupa no bolso do casaco e perguntei, ao estilo de um soldado em plena emboscada: «Isto é verdade? Posso ir ver os filmes todos que quiser? Posso ver dois filmes por dia? E só custa treze euros por mês? Não são trinta? São mesmo treze?» No fim da rajada, a menina, orgulhosa da criação que o seu amo e Rei se dispôs a fabricar e logo depois a oferendar ao seu povo, disse: «Sim, tudo isso é verdade. O cartão Kingcard custa treze euros por mês. Pode ver até dois filmes por dia e, se quiser, vê-los mais que uma vez, noutros dias.» Eu, ainda meio zombo, abri outra vez o alçapão e continuei com a minha sagacidade de atirador bem afiada. «Não há aqui algo escondido, minha senhora? Vou assinar isto e depois fico agarrado com qualquer alínea que me possa ter escapado? Ninguém dá nada a ninguém. Isto, a ser como diz, é bom demais para ser verdade. É que, sabe, para quem ama cinema como eu, para quem se alimenta da riqueza das imagens, dos argumentos, das histórias, das personagens, como eu, isto não é um cartão, é uma caverna recheada de estatuetas douradas.» Lendo nos olhos da moça que a verdade estava dentro dela, terminei o discurso do incrédulo e, finalmente, peguei na caneta e assinei. De um assomo com tal intensidade que a assinatura pouco se assemelhava à que está no bilhete de identidade.

À manhã


É verdade que as cidades engolem as pequenas aldeias. É verdade que os dialectos nas aldeias são dialectos alienígenas para os citadinos. É verídico que os temores e as dificuldades entre as pessoas da aldeia são os mesmos que enfrentam as pessoas na cidade. Se eu pudesse voltar atrás, àquela sombra amena, sob o manto verde de folhas e de ideias. Sentar-me, encostar a cabeça no tronco da árvore e assistir à corrida de nuvens, naquele oblongo céu azul. Mas não consigo evadir-me e chegar tão longe. Não me consigo libertar deste ressoar de gente e desta cidade em forma de maleita. Pelos meus passos, pela minha pele eriçada, pelos meus ombros que se empapam de ruído, eu esmoreço. Farto desta sujidade, desta língua de imundície, que se separa com afoiteza do buraco onde grela e vem ocupar o meu silêncio, as minhas indagações à conta da vida. Por isso, fujo muitas vezes em busca da leveza da alma. Procuro despistar os vermes e ludibriar a pestilência da cidade. Fujo ao primeiro e ao segundo encontro. Viro esquinas, escondo-me por baixo das oportunidades que surgem.
Então, para trazer a pureza até mim, vou ao teatro e extirpo do seu ventre as personagens e os diálogos ricos, ricos, da peça À Manhã. Lembro-me de uma conversa, lembro-me daquela mania que as pessoas tinham em conversar umas com as outras. Havia nas personagens a mesma qualidade de conversa. As gentes da cidade não sabem conversar. Sabem falar, sabem dizer coisas, sabem fazer sair palavras de dentro delas mas não sabem conversar. As gentes desta cidade não sabem nada de conversas, não percebem nada sobre o seu menear. Por isso, as gentes, os habitantes muito evoluídos da cidade, em vez de se renderem aos meneios e trejeitos tão enleantes das conversas, enfraquecem-se e tornam-se a própria sombra da metrópole. Às vezes tentam conversar. Mas apenas despejam palavras umas contra as outras. Embrulham-se de tal maneira que, no final de cada solilóquio, se separam sem terem aprendido nada uns com os outros. O chorrilho de um ditado individual.
Quando não posso mais, refugio-me na valentia dos outros. Fui ao teatro. Fui embeber as vozes distantes das nossas aldeias. Fui ao teatro reaprender a conversar.

domingo, janeiro 15, 2006

Jarhead (welcome to the suck)


Tem à sua frente uma gata que lambe a pata. Em baixo, junto ao chão, as colunas deixam fugir os primeiros acordes da banda sonora do filme Goodbye Lenine. Espalham-se pelo chão frio, sobem pelos móveis, ultrapassam os puxadores das gavetas, trepam os Cds mal empilhados, colam-se à manta, em cima do sofá. A gata senta-se, enrola a cauda por cima das patas brancas. Escuta-a, e observa o que ela não vê, imaginando, no seu deserto, o que ela poderá estar a imaginar, enquanto aquele magnífico piano lhe cobre os pés com um pó feito de cristal.
O que ele tem à sua frente pode ser um sítio árido, pode bem ser uma história de infinidade e desorientação. De desapego. No entanto, aquela alma moribunda, deixa-se estar sentada em cima de duas almofadas cor de laranja, cheias de esferovite. Das teclas do piano de Tiersen saem pequenos seres vivos que se movem livremente e continuam a sua multiplicação matemática numa cadência própria de um doido, de dois doidos, de muitos doidos. Por tanto deserto e tanto sossego, amarinhando todas as superfícies que encontram: o tecido azul do sofá, a sombra nas paredes, a madeira da estante de livros, as malhas encardidas do tapete, a planura da mesa de trabalho, o vidro negro da televisão e o reflexo dentro dele, a grafite na ponta de um lápis, as letras miúdas na folha de um jornal.
Aqueles braços tombados, em cima das almofadas, não se conseguem erguer. Aqueles dedos, que saem dos braços mortos, não se mexem. Estão inertes. Nem a correnteza da melodia os anima. Ali estão, presos, inúteis, chorosos. Estar sentado, de braços ao longo do corpo. Começar uma impetuosidade, criar um meneio qualquer sem sentido nenhum, construir uma explosão e vê-la crescer, expandir-se e morrer, alimentar o vazio.
O que fazer, que caminho seguir, que gesto, que palavra, que palavras, para onde, e para quê, porquê, porquê sentir, e porque não sentir, o que fazer quando o que sente não é aquilo que se quer sentir e não se sabe nada sobre a verdade ou sobre o futuro e muito menos sobre o passado, o que fazer dentro desta colmeia de trivialidades.
Afinal, há um recipiente vazio junto aos pés. É um frasco de vidro. As mãos movem-se. Os seus dedos no vidro são como chuva sobre chuva sobre um rio. Há, nesse instante, de pele sobre vidro, de frio contra frio, de luz contra luz, a consciência plena da sua própria inutilidade. Estar sentado, de braços estendidos que seguram um frasco oco. Estar só, sentado, deserto, despovoado. Transparente.

domingo, janeiro 08, 2006

House


Todos os dias me lembro de carimbar o regresso. Há quanto tempo. Meras frases sem nexo que rodopiam por dentro e abrem um trilho em direcção ao retorno. Uma voz sem dono. Uma voz cavernosa e sem ordem, sem ninguém que a governe. Todos os dias a pensar no próximo retoque. Depois, este sítio árido onde, às vezes, as palavras se resguardam.
Presumo que já ninguém visite este sítio, largado ao futuro e à eternidade gélida do espaço virtual. Portanto, ouço o eco das teclas, ouço o tremelicar da música dos Sigur Rós, ouço o esfregar das mãos, o estalar dos dedos, o recomeço, a turbina interior a acender-se de imagens, vejo cores, vejo diálogos como imagens, pinturas expostas ao ar frio da indiferença. Esta teima na ausência. O capricho de ignorar esta necessidade de desordem, de desarrumar as ideias e de as voltar e entrelaçar, em busca de outros horizontes, outras viagens. Outras descobertas.

House M.D., na Fox, às terças-feiras à noite. Depois de Six feet under, Once and again e The X-files, esta é uma das séries melhor escritas e melhor interpretadas que me lembro de ter visto. Destaque gigantesco para a representação do actor Hugh Laurie, o médico controverso e genial lá do sítio. Estado de puro esplendor.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Breve desunião do tempo


A partir de agora o tempo multiplica-se. Corre depressa, abranda, saltita, sobe as árvores nuas, pendura-se nos seus galhos, balança. Cai. A partir desta noite, vejo todos os ponteiros de todos os relógios mais longos que as suas sombras. São duas e um quarto, são quatro e meia, é uma hora, é uma e trinta e cinco. É meia-noite. O tempo que traz lá dentro uma revolução, uma revolta, uma transmutação. Fixado à parede de cal, o som metálico dos ponteiros é enrolado numa sombra que diz negro e diz dano e diz angústia. Vejo estas horas desiguais a serem uma lágrima ao fundo do corredor. Percorro-o, introduzo-me de manso nessas águas turvas, tento espreitar os buracos que não consigo alcançar com as mãos, silencio os meus passos e espero uma resposta, uma voz mortiça ao fundo, que do negrume me diga esperança ou suspire confiança ou murmure luz luz luz. Mas eu não vejo mais que pintas de alcatrão grosso. Eu não vislumbro nenhum rosto e muito menos escuto vozes ou suspiros ou murmúrios. Sinto a breve desunião do tempo. Sinto, vindo de cima e dos lados, numa explosão uníssona e crepitante, a tômbola das horas. Não tenho esperança, não tenho fé, não tenho, ao perto, a luz. Como se visse, a partir de agora, as horas do fim. Nítidas, nítidas.

sexta-feira, outubro 07, 2005

O homem da gravata


«Tenho 45 anos e nunca pus uma gravata». Ramiro Gonçalves levantou a voz, no meio de uma conversa entre colegas de trabalho. «Nunca pus uma gravata e repudio a coisa.» Sem que ninguém lhe ligasse, Ramiro Gonçalves resolveu adoptar um tom algo sibilante ao que dizia, aguardando a merecida atenção. Como os outros continuavam a rir, de copo na mão, e a discutirem os assuntos mais insípidos, Ramiro pôs-se todo num grito. «Usar gravata é um acto ridículo que não traz nenhuma utilidade ou benefício à vida das pessoas. A gravata é um objecto supérfluo.» Assim que deixou a voz abater-se largou da boca um sorriso de triunfo. Todos os homens e todas as mulheres pararam de beber e interromperam as respectivas conversações. Foram 4 ou 5 segundos em que o silêncio se sobrepôs à algazarra. Uma paz feita de cimento veio cair sobre todos os sons dentro de cada um dos movimentos. Ramiro Gonçalves, sem copo na mão e com o fôlego já recuperado, destilou nesse sossego instantâneo o seu olhar científico. Preparava nova intervenção. Nesses 4 segundos não tirou as mãos dos bolsos e fez questão de manter sólido aquele sorriso vitorioso. Enquanto todos processavam as palavras estridentes, que ainda flutuavam à superfície das bebidas, Ramiro, o homem que nunca usou gravata, reunia dentro dele uma força distinta. Esperou que chegasse o primeiro movimento, esperou que a onda de silêncio se dissipasse, esperou, com o sorriso sempre bem assente na cara, que alguém debuxasse a mais pequena reacção ao que tinha acabado de dizer. Os seus olhos, em dois segundos, desbravaram a sala cheia de mãos e cheia de copos e de rostos atordoados. Nessa profusão de vidro e líquido, reparou que haviam muitas gravatas. Então, antes que uma delas se pusesse a bailar e a puxar a voz ao dono encarniçou-se da força excepcional que explodia dentro dele e disse «A gravata é dona dos homens que a usam. Cada homem com gravata é um fantoche e gosta de ser fantoche. De manhã, enquanto a põem em frente ao espelho, dando voltas e nós e mais voltas, está, de facto, a perder tempo. Afinal, para que serve uma gravata? Embalado, Ramiro, de camisa branca franqueada, tornava evidentes as veias do seu pescoço. «Afinal, caros bonifrates, de que vos serve esse pedaço de tecido aí pendurado ao pescoço?
Aquele homem eriçado, um recém-nascido inimigo das gravatas, pendurou o discurso e estacou-se à porta do bar. Abriu-a e saiu. Atrás de si uma comoção que aumentava. Atrás dos seus ombros, a esbater na montra com a impetuosidade de uma tempestade, o tambor da multidão, as vozes da ira, o vidro a estremecer, a ondular-se em múltiplos movimentos.
O senhor Gonçalves sentou-se no lancil. Enquanto os automóveis passavam e paravam diante do círculo vermelho, enquanto a coruja no jardim em frente piava e esse som se diluía no amansar da cidade, enquanto as gravatas, dentro do bar, voltavam ao frenesim dos copos e das conversas da largura de um canto escuro, ele pensava: «de um momento para o outro tudo isto se consumirá. Porque hoje, depois de muitas possibilidades, não te encontrei. Agora, não tenho mais nada a dizer. Devia ir dar uma volta, sei lá, apanhar o ar das pessoas na noite, não sei, sentar-me no banco de jardim, estender as pernas, ver os estrangeiros de mochila às costas e os corpos feitos de uma asneira que não compreendem. Pois devia. A qualquer momento tudo isto ruirá. Não há nada mais a contar. Sigo como as velas ao vento. Sou eu mesmo o vento. Sou a poeira que vai no vento e as pessoas não notam, não vêem. Não querem ver»
Amanhecer, entardecer, anoitecer. E depois? Há alguma coisa que seja proveitosa quando ninguém está a olhar? Como um esconderijo. Como a cortina que oscila e já não é Verão. Mas parece.

segunda-feira, setembro 12, 2005

A pele por baixo da minha pele


1. O Dr. Salvador arreda os olhos e abana a cabeça. Junho, de tons ocres, ar espesso e volátil. Diz-me meias palavras. Diz-me «não devias, José», diz-me «eu acho que é um risco voltares às lides da nossa paróquia». Tenho os braços atrás das costas, Junho, de paladar seco, a luminosidade veraneante na cal da aldeia. Tenho a janela aberta nos meus olhos e nas suas rugas. «Não podes, José». Repetia «não», redizia «a tua saúde, José», alimentava a sua preocupação no meu rosto pálido e pensativo. A janela entreaberta, os cães à sombra e nas suas línguas o retinir da tarde quente.
Agradeci-lhe os conselhos e segui. Tinha no corpo e na mente o vício. Tinha na minha língua infindáveis discursos. A vontade de sorver a felicidade dos outros e ouvir o meu Senhor, lé em cima, clamar o Amor, a celebração do Amor. Sai do consultório do Dr. Salvador pleno de convicção. Será a minha última cerimónia. Amanhã, Junho, de águas tépidas, amanhã, nestes dias abrasivos e longos, vou casar o Daniel e a Celeste. A minha última cerimónia.
2. Estou nos meus aposentos e assento as vestes neste corpo dormente Na igreja aloja-se um murmúrio solene. Vício, vontade, alegria. Neste quarto pequeno preparo-me, e nas paredes o som dos miúdos, as cadeiras, o eco que mergulha na imobilidade dos santos. Anos, anos, o meu vício nestas paredes, nos detalhes domados, no pó assente, anos, anos. Tenho no corpo o vício da felicidade alheia. Preparo-me, benzo-me. A minha última cerimónia. Emociono-me. O meu corpo soterrado de memórias. Os meus dedos amparam o livro do Senhor. Os meus passos fora de mim, de encontro aos móveis escuros, os meus passos como os últimos passos de toda a minha vida. A minha pele treme, a pele por baixo da minha pele treme, o vício, a alegria dos outros, o meu néctar, a minha vida inteira.
3. Saio, fecho a porta e não ouço eco atrás de mim. Dirijo-me à tribuna, o murmúrio a elevar-se, uma onda de vozes baixas, uma duna de bocas misturadas com os olhos brilhantes todos juntos à espera, cravados em mim. A iluminação da felicidade, o meu vício. Sinto-me nos gestos tímidos das pessoas sentadas à minha frente. Dito palavras, arranjo o meu último discurso e arremesso-o aos noivos. Daniel e Celeste à minha frente, felicidade, ânsia, a opulência do silêncio, as minhas mãos trémulas, Deus, Senhor. Amai-vos, perco o tempo e perco as palavras. Daniel e Celeste estáticos são duas sombras, à espera, à escuta. Amai-vos e respeitai-vos, a igreja repleta, um abafo de olhos e de fatos cinzentos, azuis. Amai-vos e respeitai-vos até que a morte vos separe, Daniel e Celeste. A minha voz inaudível. O peso nas pernas, no peito, dentro do peito, a querer sair. Ao fundo, o Verão inteiro a querer entrar. Penso: não quebres agora, José. Deus, vício, Senhor, Deus. Amaino as mãos a tribuna. Declaro-vos marido e mulher. Palmas, sorrisos, beijos, o Amor, a felicidade, o meu vício, inclino-me sobre a tribuna. Tombo, o fim do princípio do meu encontro com Deus. Vício, o meu amor pelo brilho instantâneo dos outros.

domingo, setembro 04, 2005

O mentiroso


Havia muito tempo que carregava aquele grito às costas. «És um grande mentiroso». Todos os dias, aquela voz estrídula a exclamar-lhe por dentro mentiroso mentiroso mentiroso mentiroso. Sempre lhe apeteceu contar aos outros pequenas histórias, ligeiros enredos que fossem avessos à monotonia resultante dos dias. Queria desviar aqueles olhos tristonhos do chão e pô-los ao nível dos seus. Queria, no fundo, alegrar as pessoas. Todas as historietas que contava tinham um fundo de verdade e eram muito claramente influenciadas pelas coisas que via e pelas coisas que sentia. Num impulso, derramava as personagens, os eventos e os sítios. Aquilo fazia-o fervilhar. A sua única preocupação era descobrir até onde o levava a sua imaginação. Não pensava em engano ou desilusões. Não pensava na mágoa que os outros pudessem sentir quando, finalmente, tivesse encontrado o fundo ao saco imaginativo e levantasse a cortina, revelando então a verdade. Eram pedaços da sua criatividade e gostava de os expor às pessoas amigas. Como quem encosta às paredes duma galeria os seus quadros ou suas fotografias. Queria ser um incitador ao devaneio imaginário, um mostruário de novos mundos. Para ele, cada história começada era uma janela aberta à rua, fora do quarto bafiento da realidade. Ele dizia que aquelas narrativas fantasiosas acalmavam a sua frustração e lhe davam esperança. Era isso, ele queria ter esperança. «Um dia entro numa destas jornadas e nunca mais regresso.» Adeus hipocrisia, adeus, crueldade, adeus injustiça, adeus impossibilidade. Por isso, inventava pequenos relatos, que atirava aos outros com todo o ardor, acreditando que, com isso, as pessoas iriam sorrir e deixar de lado as agruras da actividade moderna. Era mesmo isso. Ansiava libertar toda aquela fuligem e trivialidade que exilava das pessoas com quem contactava. Sempre os mesmos problemas, sussurrados nas mesmas frases, às mesmas alturas do dia.
Agora gritavam com ele, «mentiroso, mentiroso, falso, falso, falso». Mas o calor desabou sobre a cidade quando ainda todos o acusavam. Esse estrondo fez dispersar as vozes acusatórias. Cada um seguiu o seu trajecto, cada um fechou o seu grito e prosseguiu, como se, de repente, houvesse uma mão que lhes desligasse um botão no corpo. «O que é que se passa?» O homem, a quem acusavam de ser mentiroso, queria que o olhassem nos olhos e vissem o seu espírito incrédulo. Queria correr atrás das pessoas e bater-lhes nos ombros, e depois mostrar-lhes o seu rosto cheio de verdade, a sua verdade. Mas as vozes acusativas desapareceram entre o polvilho da rotina diária. O homem da mentira ia andando de um lado para o outro. Incerto, com gestos ainda difusos, entrava no período do silêncio. A noite abriu as suas asas e escureceu todas as palavras e todos os pensamentos se tornaram certezas. Mas nenhum deles deixou de soar a mentira.

quinta-feira, agosto 18, 2005

Estilhaços


Quando subia a rua sentiu as janelas tombarem sobre a calçada íngreme. Dentro das janelas havia vozes. Dentro das janelas viam-se gestos e vozes langorosas que flamejavam de indiferença, de miserabilismo. Viu os trilhos de metal que carregam os eléctricos. Ao cimo da rua gente passava e abafava os seus pensamentos. Cada passo muito vagaroso, cada lembrança a luzir-lhe por dentro, a pressagiar-lhe, de repente, tudo o que queria dizer. No eco dos seus pés, que embatiam no chão em lentidão extrema, quase inertes, assistiu-lhe, porventura, um tal fulgor no espírito que lhe palpitaram do cimo da língua todas as palavras que deviam ser ditas.
E disse: talvez o mar sejam as pessoas, talvez a voz que ouço do mar sejam as pessoas todas juntas, todas tristes que gritam, talvez o mar inteiro seja um grito e talvez esse grito só seja escutado em raros momentos, quando debruçamos a nossa alma sobre ele.
Talvez tudo seja feito com ferro, com vidro e com madeira. Talvez tudo seja feito de ferro e de vidro. E de estilhaços.

terça-feira, agosto 16, 2005

A generosidade da Natureza


Faço intenções que isto resulte. Deposito nas palavras que agora escrevo uma ventania, um repentino movimento a clamar alvoroço e a pedir vozes, a pedir diálogos, a resgatar gente, que venham até cá, que se lembrem de tocar à porta, é castanha, de madeira, que venham, são bem-vindos. Contam-se histórias, combinam-se discussões sobre o mundo e sobre os que nele depositam as vulgaridades amontoadas em dias seguidos à espera.
Ontem a maledicência frontal sobre um rapaz. Ontem alguém lhe disse que a natureza não tinha sido generosa com ele. Um ribombar lá dentro. Aquelas palavras sem dó, aquelas palavras como um baloiço a ir e a vir à conta dos empurrões da memória, aquela frase o dia inteiro a pairar como um guarda-chuva em dia de tempestade. Uma rapariga meio tonta, sem graça nenhuma, sem nenhum motivo evidente para ser tida em conta disse-lhe aquilo, sem ele estar à espera. É o pior. Quando se trocam palavras e formam conversas simples, os olhos nos olhos ou nos detalhes do outro, quando a passagem breve dentro do café é causa de distracção e as coisas fora do sítio deslocam-se à vista desarmada, quando ele sentado, quando ela a ouvi-lo dizer coisas eloquentes, quando ela retém o que ia a dizer porque lhe apetece sorver mais um pouco do café com leite, quando ele, cândido, lhe confessa a desilusão sobre as mulheres, sobre a vida que leva, quando por fim põe pausa na língua e espera um consolo, uma concordância em feitio gestual, ela, por impulso, por maldade, por incompreensão do silêncio que lhe vê no rosto diz-lhe a natureza também não foi lá muito generosa contigo. Eles não são amantes, eles não se encontram muitas vezes, eles nem sequer têm gostos em comum. Aquela frase, a ele, corrompe-lhe o interior. É um ser estraçalhado que agora se levanta e acerta conta com o empregado. Ela quando se levanta e faz o mesmo já não se lembra do que disse, porque entretanto, passaram muitas vozes e passou muito tempo a enviar mensagens do telefone e lá fora chovia. Ele, por estar entregue às fraquezas de uma personalidade extraviada pensa muitas vezes ódio, pensa muitas vezes com muita força pregar-lhe um estalo ou levá-la para um descampado e aí, na mudez da escuridão, mostrar-lhe que, afinal, a bondade da natureza tinha sido bem maior do que ela pensava. E demonstrar-lhe que, em certas ocasiões, é do agrado dos deuses ser-se discreto.
Os pensamentos são facas aguçadas. As imagens de violência misturam-se naquela vaga de chuva e dos céus ele não vislumbra ousadia. Fica a olhar um cinzento amolecido debaixo do toldo de plástico a dizer Café da Praça em letras vermelhas. Ela ainda dentro do rebuliço das bandejas prateadas conversa com alguém que encontrou. Não se lembra. Nele, o ódio. Ele, já húmido daquele céu sem piedade, quer mal aos outros, quer que a vida dela seja um poço negro, quer ficar sozinho, quer recolher os gritos de que a cidade é feita e arremessá-los aos rostos dos felizes como ácido. Ela, entretanto, sai, e olha para os lados em busca dele, a chuva pinga abundantemente da borda do toldo branco que diz Café da Praça em letras vermelhas, ela tropeça em alguém que entra empurrado pela chuva. No banco de trás de um táxi, uma angústia muito grande a afastar-se.

domingo, julho 10, 2005

O tempo a passar


Quando reparo nas datas nem acredito. Quase dois meses. Receio que se esgotou o engenho de enrolar palavras dentro de mim e de as mostrar aos outros, afoitas, em forma de sonoridade aprazível. Não tenho escrito, a não ser em ligeiros momentos do dia, em que construo duas ou três frases na minha cabeça para depois logo as arrumar à pressa, retomando a atenção devida aos obstáculos dentro da cidade. E o tempo passa. Há uma massa espessa que cobre o tempo e o encobre dos sentidos; e o tempo passa, anda como um assobio volvido ao céu, corre, e esquece a nossa pressa e a nossa vontade. Voa, multiplica-se, alastra-se; o tempo, às vezes, parece a mãe de todas as aves e retira de cada uma delas o seu olhar ágil sobre as estradas, sobre as terras lavradas, sobre os vales virgens, sobre os telhados cobertos de musgo e de silêncios, de temores. O tempo que me persegue e me afasta. Estes dias de verão, do regresso a casa, carregando na base do pescoço uma caixa cheia de cinza invisível. Quero escrever, quero escrever, quero muito escrever, todos os dias queria escrever, queria inventar palavras novas e queria apoderar-me desta ambição literária, torná-la hábito, convertê-la numa necessidade premente, drogar-me com os espaços entre as palavras, pegar nas vírgulas e nos acentos e injectá-los nos meus músculos, golpear o corpo, entranhar lá dentro muitas letras e deixar fermentar frases no ardor do meu sangue.
Mas o tempo passa e esquece. Institui-me a rotina. A bafienta marcha do tempo. Quantas vezes me lembro de reparar nele, de o puxar pelos braços, ou pelo tronco, e apoderar-me da sua turbulência. A ver se me lançava eu próprio numa voragem criativa que nunca exaurisse.

terça-feira, maio 17, 2005

A sinuosidade do dia seguinte


Finalmente. Quero que os dias me castiguem, quero que as lembranças desses dias me ceguem e me façam largar a memória. Como as marés, venho desaguar às tardes de Maio sem noção do tempo. Caminho e destruo-me. Às vezes, acompanho os meus pés descalços na areia com pensamentos embebidos na brisa da tarde. Às vezes, quando me quero aproximar, há distâncias e há incómodos. Um intervalo muito fundo, de longitude incerta. Finalmente, deixo abrir um pedaço na noite e assisto à dança da claridade em cima da minha pele. Dissipo algumas palavras. Sem querer dizer nada, sem querer alcançar nada, sem desejar nada. Quando a noite realça a indiferença do futuro. Quando a noite expõe a sinuosidade do dia seguinte. Quando me quero esquecer, quando pego na tesoura a recortar um segundo para delapidar um minuto. A esperança dum caminho de folhas secas, à espera do vento crespo da montanha.
Tenho um punhado de cabelos brancos entre os dedos.
Vejo no asfalto um pingo de chuva que se desfaz nele e o enegrece.
Encosto a cabeça na cadeira, relaxo o corpo até o desapertar de mim, estico o braço ao longo da janela em andamento, observo o mar e a espuma branca na areia. Vejo o céu.
Ando depressa, atravesso a rua, do canto do olho sinto os carros quietos, há outros corpos que passam e que se cruzam comigo, ando a perseguir o conforto e a ordem, os sonhos, os sonhos a fugirem sempre que acordo, sigo agregado a estes pensamentos, ao anseio de os ver, um dia, pintados em tinta azul num muro disposto a ser demolido.
Por cima de mim, árvores.
Em cima de mim, um céu de árvores, limpo.
Aqui, nesta terra demorada, os corpos das mulheres são lembranças. Nesta luminosidade, resta em cada corpo martirizado, a ofensa do abandono. Lembro-me.

Este céu, este mal


Na cama vejo além do tecto, vejo o céu. Sou ridícula. Nestas roupas afoitas sou uma mulher desmembrada. Quero, não quero, tenho medo, tenho medo deste céu sujo e que ele traga os teus olhos perto dos meus olhos. Deitada nesta cama só vejo a tensão do mundo espalhada sobre a casa. O telefone. Num impulso, levanto-me. O céu negro. O céu espesso e negro. Atendo, a minha voz é uma gota desse céu. Teresa? Ainda aí estás? Anda lá. A Joana. A festa. O céu que desaba. As nuvens são monstros e gritos que fazem vibrar esta cama, estas paredes, eu. O que fazes ainda aí? Dou-te quinze minutos. Vá lá. Nem imaginas quem cá está. Ele. Tu que eu quero, que eu não quero, não posso. A Joana quase a sair de dentro do telefone. Vem, vem, vem.
Quando desço as escadas não ouço o céu. Quando abro a porta do prédio não tenho sobre mim o espanto dos outros. Há pessoas que passam. Há conversas ténues que passam. Espero o táxi na borda do lancil. O céu embrulhado, vigilante. Não vás. O céu rude, os olhos do céu negros. Os automóveis passam; entro no táxi. Boa noite. Para a rua das Acácias, por favor. O senhor taxista, a música que irrompe do rádio, está um dia pesado hoje, não acha? Solto as palavras que posso. O céu enorme e negro. Enrolo palavras nas palavras do senhor taxista. Tenho os olhos nas manchas da cidade. A velocidade do automóvel. A música e depois as notícias e depois manchas verdes no vidro. Depois o céu aberto e escuro, muito perto. O senhor taxista empolgado com qualquer coisa, as novidades do mundo. Os olhos dele no espelho retrovisor. Os meus olhos nos dele muitas vezes. O céu como uma manta negra. O brilho do espelho retrovisor. Asfixio e ponho os olhos na estrada, nas árvores, nas casas que fogem. Tenho no peito os olhos do senhor taxista. O céu brutal, o céu com uma voz alongada, o céu com uma voz temerosa. Os olhos do senhor taxista em mim. O abrupto de todas as cores misturadas em todos os gritos. A convulsão do metal do táxi. Um corpo que é violentado. O céu como uma prensa. O céu como uma piscina de sangue, de metal retorcido e pedaços de roupa.
Em cima de mim já não existe céu. Há uma névoa e aromas negros dentro de mim. Tenho um homem deitado no meu colo. Tenho o sangue do senhor José nos meus braços. A convulsão do mundo. Eu sentada. Eu como uma estátua, olho o senhor José. Tem os olhos abertos, e neles o medo. Coloco a minha mão na sua testa e o céu está dentro de mim. Quando os olhos do senhor José se fecham é o céu que se fecha em mim. Eu sou a paz que é feita de sangue.

quarta-feira, abril 20, 2005

2046


Há filmes que se extinguem e se esquecem, há filmes que se alcançam. E existem outros, como 2046, que me fazem adquirir mais vida, mais desejo pela vida. Ocorrem à vista os planos impelidos propositadamente aos detalhes e às coisas esquecidas, como o esvoaçar de pés, dentro de sapatos pretos, a delimitarem no soalho as palavras vindas de cima, a suspensão angelical do bico da caneta sobre o papel, perpetuando o ritmo delirante das ideias, o baile das cores quentes, a presença massiva de sensualidade e de vultos no ritmo perfeito. A mesma exiguidade entre os corpos e a mesma intimidade dos espaços que In the mood for love. É um filme em forma de arte, que grita talento em cada plano, em cada pausa entre as vozes e entre os rostos que se observam. E depois, a servir de amplificação ao filme, há ainda a música. Que se mistura no cenário e nas roupas, que escorrega delas até à sombra, que é o som de uma porta que fecha, que é a aspereza de muitas vozes entrançadas no fumo que ondula perto do tecto, que é aquele lugar invisível entre uma pergunta e uma resposta. No final, quando me acontecer o alude abrupto de imagens de vida, estas vão lá estar

sábado, abril 09, 2005

Mar Adentro, tantas vezes eu quis


Não sei se o teu coração também se encolheu e depois expandiu quase ao fundo do mundo, como o meu, após teres visto Mar Adentro. Enquanto esperava que o Metro chegasse, tentei construir frases que expressassem correctamente o avesso da minha pele. A onda densa e secreta que sinto por dentro e toma conta de mim quando o que vejo, o que ouço, o que cheiro, o que tacteio, é admirável. Não sei se, tal como eu durante o filme, ficaste sozinha, sem cabeças à tua frente, sem cadeiras ou escuridão, sem paredes e sem portas e perdeste a noção do tempo, do espaço e do palpitar do teu peito nesse espaço e nesse tempo. Queria perguntar-te, agora, ignorando as ruas, os prédios, as planícies, as encostas, os vales, as montanhas que nos apartam, se o tivesses visto ao meu lado nos teríamos encontrado e contemplado o sorriso um do outro, plenamente repletos de vida, e de morte. Não sei se o teu rosto se contraiu, não sei se os teus olhos se aguaram, não sei se durante Mar Adentro te sentiste pequena e grande, te imaginaste a olhar o espelho e viste, precisamente como eu, dois espectros, duas formas de luz, vizinhas como dois grãos de areia numa praia e, no entanto, impossibilitadas de se tocarem, de se acariciarem, nem que fosse por um momento. A vida e a morte.

sexta-feira, abril 08, 2005

Os dias do fim e do princípio


«É com algum assombro que recebo e leio a sua missiva. Graças a Deus a Internet é falível e esta carta abandonou o seu curso natural e veio parar aos olhos de outro destinatário. O destinatário errado.
Porque não necessito de contestar uma evidente e escabrosa calúnia, dedico estas palavras à constatação e à divulgação de um facto mais óbvio ainda: Vossa Excelência é uma aberração. Pior: Vossa Excelência é uma aberração e tem consciência disso. Mais do que tudo, adopta um discurso populista nauseabundo, há muito ultrapassado. Acredito mesmo que, ao longo destes anos de observação dos comportamentos humanos, Vossa Excelência excedeu, de uma forma vil e brutal, todas as minhas expectativas mais nefastas. E por ser assim, não me resta outra alternativa senão pressentir o seu futuro em tons de negro. Obviamente, está despedido. Bem haja.»
Havia três semanas que esta carta repousava no tapete do quarto, recolhendo todas as brisas, todos os dias e todas as noites que, desde então, sucederam. Havia vinte e um dias que Miguel tinha abdicado da vida costumeira, integrada no tempo e na passagem do tempo. Não saía da cama. O cheiro e o choro confundiam-se e eram amantes naqueles lençóis. Miguel tinha sido despedido à custa de uma brincadeira. O corpo de Miguel desfasado do tempo, e o tempo, indiferente aos seus lamentos, acertava com a vida e prosseguia impávido, como a sugestão da chuva na fenda de uma manhã brumal. Nestes dias inteiros e ocos, não respondia a telefonemas, não saída de casa, quase não se alimentava. O marasmo e a derrota fixavam-lhe os movimentos. Era certo haver naquele comportamento o detrito do Passado. A carta, aberta e já com pó em cima, dançava à custa de uma corrente de ar. Miguel desaparecia nos lençóis imundos e na sua própria inércia. Para ele era dia, era noite, era uma noite aberta ao dia.
Um estrondo vindo do hall não o sobressaltou. O eco e a sua voragem rente ao chão moveu a carta mas não a levantou. No quarto, entram dois bombeiros, e com eles um bafo de energia, que rasgou de vez a cortina de pasmo instalada na casa. Atrás deles, uma rapariga de longos cabelos ruivos. Debaixo do fluxo grosso que vinha da rua e se espalhava no silêncio das coisas, vinha Matilde. Afastou os bombeiros e o peso dos seus fatos. Lançou-se a Miguel e abraçou-o. A decadência impregnava-se-lhe na pele. A decomposição das paredes e das sombras dos móveis nas paredes escorria-lhe no rosto. Sentia-a, degustava-a, enquanto abraçava Miguel com o conforto que lhe restava, depois de semanas mergulhada na angústia. Um beijo impulsivo saiu-lhe dos lábios e caiu, sem suavidade nenhuma, na face seca de Miguel. Os bombeiros cochichavam. Rugiram «ambulância, chamem a ambulância». Matilde deu-lhe beijos como se o banhasse.